03/02/2008

Proíbam-se os peões

Estava tudo amontoado junto ao passeio, a olhar para o carro de polícia. E sempre que há gente ao molho a observar a autoridade, é porque alguém fez besteira. Neste caso não era apenas um o infeliz, mas sim vários, todos autores do ‘sacrilégio urbano’ de atravessar a avenida fora da passadeira.
Seguramente não liam jornais, pois as notícias eram claras: quem não respeitasse os locais de atravessamento de peões levaria na hora com uma multa. E os dois agentes fardados estavam ali para fazer cumprir a lei. Multavam a torto e a direito os descuidados transeuntes, hipnotizando por tabela a pequena multidão, que naturalmente aproveitou a desculpa para não fazer mais nada durante o resto da tarde.
Não, não. Não se trata de mais uma investida da ASAE. A cena passou-se no Abu Dhabi, cidade árabe cujas experiências no mundo dos transportes nem de estímulo servem à reflexão nacional.
O que está mesmo a fazer furor no Abu Dhabi são as multas para os peões que ‘querem ser atropelados’. Apanhado em flagrante, o transgressor tem de pagar dez euros logo no acto. Caso contrário, a polícia fica com o seu BI e só o devolve quando a quantia for saldada.
Nada de contemplações, nem processos de contra-ordenação - este brilhante invento ocidental que, cá no burgo, tem a notável habilidade de protelar o pagamento das coimas até que o infractor se esqueça do que infringiu.
Naquela esquina do Abu Dhabi é que não. A polícia não se cansava de sacar folhas do bloco de multas, perante tímidos protestos dos penalizados. No passeio, alguns sorrisos, algumas bocas abertas, alguns comentários e eu próprio, que, para evitar problemas em solo estranho, saí logo à procura de uma passadeira 1.
E ainda há para aí muitos ‘loucos’ que defendem a prioridade da circulação pedonal 2 sobre os veículos invasores poderem livremente aceder a - imagine-se - passeios, passadeiras ou até a espaços ajardinados! A solução ‘final’ até é simples: irradiem-se os peões. Viva a ‘mobilidade’ automóvel.

1 comentário:

miguel disse...

Eu vi esse comentário no Público e depois do primeiro parágrafo, nem o quis ler até ao fim.
Agora que o leio todo aqui, as minhas piores expectativas foram confirmadas.
Como dizia alguém, o que são precisas é mais passadeiras aéreas para peões em Lisboa.

abraço